O ÁUDIO SEMPRE DÁ O QUE FALAR
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O ÁUDIO SEMPRE DÁ O QUE FALAR

20/10/2026 · por Cássia Gomes

Das memórias afetivas do rádio na infância às múltiplas possibilidades do áudio no universo digital, uma reflexão sobre como os sons atravessam gerações, despertam emoções, estimulam a imaginação e nos convidam a pensar sobre a experiência de escutar em tempos de inteligência artificial.

O ÁUDIO SEMPRE DÁ O QUE FALAR - Por Cássia Gomes Locutora, Atriz e jornalista Publicado em 6 de janeiro de 2021 no linkedin https://www.linkedin.com/in/cassia-gomes- Versão atualizada para o blog do Clube dos locutores em 15/10/2026

Quando eu comecei a ir para escola a minha mãe entrava no meu quarto para me acordar todas as manhãs, geralmente no mesmo horário que tocava uma música no rádio. Meu dia começava com cheiro de café coado em coador de pano, e com uma melodia que me remete a um tempo em que a vida se apresentava com mais simplicidade.

As redes sociais eram formadas no presencial com uma ajudinha extra dos discos de vinil e das fitas cassetes que atraiam familiares e amigos para os encontros infindáveis.

O contemporâneo da turma dos adultos era quem apresentava o álbum de um cantor, de uma dupla, ou de uma banda diferente, ou o último lançamento do artista preferido do grupo. Restaurar essas memórias da infância promoveu uma sensação tão gostosa aqui dentro.

Voltando à história, enquanto eu tomava o meu café a mãe ouvia o rádio toca fitas portátil sintonizado nas primeiras notícias do dia.

Os anúncios, as novidades da cidade, o programa que narrava as cartas dos ouvintes eram uma sedução, mas o ponto alto da audiência eram as narrações das histórias de vida, a maioria de amores difíceis, distantes, sofridos.

Com o ouvido atento ao caso, a minha mãe penteava o meu cabelo e o prendia com dois coquinhos laterais, ao mesmo tempo em que os fatos iam acontecendo no imaginário dela, uma ouvinte fiel, que levava o seu companheiro para os afazeres da casa.

Vez ou outra o inseparável estava em cima da geladeira, no chão do banheiro, próximo ao tanque, ou com o volume perto do máximo para que ela não perdesse nenhum detalhe do acontecimento ao estender as roupas no varal. Lembrança danada de boa, o ano era 1990.

Mudando para um assunto correlato traço agora um paralelo com o áudio, formato que notavelmente regressou com força total e vive uma intensa transformação, especialmente no meio digital.

Estou longe de ser uma especialista para discutir essa temática, mas percebo como estamos cada vez mais envolvidos e sendo lançados para esse universo. Nessa perspectiva eis alguns exemplos onde o áudio combinando com a voz falada humana, voz cantada, música com diferentes recortes de sons culturais, ou com efeitos sonoros, emprega a sua assinatura com maestria:

• No serviço de streaming, uma transformação midiática que reinventou o consumo da música e de conteúdo;

• Nos Audiobooks, que além de ser acessível atende diversos públicos, sendo possível ouvi-lo em qualquer lugar;

• Nos áudios para games, intensificando a experiência dos apaixonados por jogos;

• Na tecnologia de comando de voz. Uma realidade na automação que segue amadurecendo para se tornarem cada vez mais inteligentes;

• Na publicidade em áudio ou no audiovisual, em que o objetivo de ambos é conectar marcas a pessoas. E esses projetos ganham uma sincronia perfeita quando se valem da locução em off para ilustrar a transmissão de mensagens e de pensamentos;

• No Audio marketing, uma estratégia de conteúdo cada vez mais crescente para negócios on-line;

• Nos aplicativos de mensagens. Um estudo divulgado em 2020 pela EXAME em parceria com a plataforma de pesquisas digitais MindMiners revelou que mais de 50% dos respondentes da pesquisa gostam de enviar e de receber mensagens de áudio;

E por aí vai.

Ainda que o áudio nunca tivesse caído em desuso o seu retorno tem promovido experiências inovadoras. Reaprendemos a senti-lo.

O mais fascinante é que ele conserva a mesma essência, que remonta a uma época muito anterior à minha infância, e continua vivo em sua natureza sensorial ao promover a inclusão, entreter e informar, estimular a imaginação, aguçar a percepção das paisagens sonoras, contribuir para a elaboração de um “ouvido pensante” e construir narrativas envolventes. Em tempos de inteligência artificial, essa permanência suscita uma questão fundamental: diante de máquinas cada vez mais capazes de criar e narrar, o que ainda torna singular a experiência humana de escutar, imaginar e sentir?

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